Saber ler a curva de dólar futuro ajuda a decidir quando travar câmbio, entender por que a proposta de exportação de março veio diferente da de hoje, e comparar fixações para meses distintos sem cair na armadilha de achar que o mercado está "prevendo" alta do dólar. Este guia mostra como isso funciona, com um exemplo completo de formação de preço da soja e o caso real de 2021, quando o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos quintuplicou em menos de um ano.
A curva do dólar é o conjunto de preços dos contratos futuros de dólar negociados na B3 (o contrato DOL), organizados por data de vencimento. Cada mês tem seu próprio contrato, com seu próprio preço. Ligando esses pontos, mês a mês, aparece uma curva completa: quanto o mercado está disposto a pagar hoje por dólar entregável daqui a um mês, dois meses, um ano.
Essa curva quase nunca coincide com o câmbio à vista (o dólar spot, o que você vê no fechamento do dia). Na maior parte do tempo, o dólar futuro fica acima do spot. Essa diferença tem nome: carrego cambial, também chamado no mercado financeiro de cupom cambial ou pontos a termo.
Imagine um produtor negociando a venda de soja com entrega em março. Hoje, o dólar spot está em R$ 5,40. O contrato futuro de março, negociado na B3, está em R$ 5,56. A diferença de R$ 0,16 não significa que o mercado acredita que o dólar vai subir até lá. Na maior parte, esse valor é apenas o carrego cambial embutido naquele prazo.
O carrego não é uma aposta do mercado sobre para onde o dólar vai. É, em grande parte, matemática de juros. A lógica é a seguinte: um investidor com reais em mãos pode aplicar esse dinheiro à taxa Selic, ou converter para dólares e aplicar à taxa de juros americana. Para que as duas opções fiquem equivalentes (sem abrir uma oportunidade de arbitragem óbvia), o preço do dólar futuro precisa compensar a diferença entre as duas taxas de juros.
Quanto maior o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos, maior tende a ser a inclinação da curva. Quando o diferencial se mantém estável, a curva também tende a ficar mais previsível. O ano de 2021 mostra bem o que acontece quando só um lado dessa equação se move.
É comum confundir os dois. A PTAX é uma taxa de câmbio de referência, calculada pelo Banco Central a partir de operações no mercado interbancário, usada principalmente para fins contábeis e regulatórios (como conversão de balanços e algumas liquidações financeiras). A curva do dólar, por sua vez, vem dos contratos futuros DOL negociados diariamente na B3, refletindo o que compradores e vendedores estão de fato dispostos a pagar por dólar entregável em cada vencimento.
Em janeiro de 2021, a Selic estava em 2,00% ao ano, o menor patamar da série histórica iniciada em 1986. O Federal Reserve, banco central americano, mantinha sua taxa entre 0% e 0,25%, nível em que havia colocado os juros logo no início da pandemia, em março de 2020. Ao longo de todo 2021, o Fed não se mexeu. A Selic, ao contrário, subiu em praticamente todas as reuniões do Copom daquele ano.
| Data | Selic | Fed Funds (teto) | Diferencial |
|---|---|---|---|
| 20/01/2021 | 2,00% | 0,25% | 1,75 p.p. |
| 16/06/2021 | 4,25% | 0,25% | 4,00 p.p. |
| 08/12/2021 | 9,25% | 0,25% | 9,00 p.p. |
O diferencial de juros passou de 1,75 ponto percentual em janeiro para 9,00 pontos percentuais em dezembro, um salto que reflete inteiramente o lado brasileiro da equação. Não houve nenhuma mudança do lado americano nesse período inteiro. Esse é o tipo de movimento que se traduz diretamente em uma curva de dólar futuro mais inclinada, com o carrego embutido em cada vencimento crescendo mês após mês.
Pense numa trading que precisasse fixar câmbio para dezembro logo no início do ano. Em janeiro, com o diferencial de juros ainda em 1,75 ponto percentual, o carrego embutido na curva para aquele vencimento era relativamente baixo. Se a mesma operação fosse fechada em dezembro, com o diferencial já em 9,00 pontos percentuais, o carrego para prazos equivalentes seria bem maior. Mesmo que o câmbio à vista terminasse o ano em patamar parecido com o de janeiro, o preço dos contratos futuros negociados ao longo do caminho mudou de forma relevante só pelo efeito do diferencial de juros, sem nenhuma alteração de expectativa sobre o dólar em si.
O preço de exportação de uma commodity agrícola é formado, de forma simplificada, por três componentes: o preço na bolsa de referência (CBOT, para soja e milho), o prêmio ou desconto daquela praça e operação específica, e o câmbio usado para converter tudo para reais. Quando esse câmbio é fixado usando contratos futuros, não é o dólar do dia que entra na conta, e sim o dólar correspondente ao vencimento negociado. É justamente nesse terceiro componente que a curva influencia o preço final recebido pelo produtor.
Consulte gratuitamente os contratos DOL da B3 interpolados por dia útil no dashboard da AgroBasis.
Ver a curva ao vivoReunindo os três componentes citados acima num exemplo hipotético de venda de soja para embarque em março:
| Componente | Valor (ilustrativo) |
|---|---|
| CBOT (contrato de referência) | US$ 10,80/bushel |
| Prêmio da praça/operação | + US$ 0,80/bushel |
| Total em US$/bushel | US$ 11,60/bushel |
| Câmbio spot (hoje) | R$ 5,40 |
| Câmbio da curva (março) | R$ 5,56 |
Convertendo US$ 11,60 por bushel para reais por saca (multiplicando pelo fator de 2,2046 bushels por saca de 60 kg), o preço fica em US$ 25,57 por saca. A partir daí, o câmbio usado na conversão final faz toda a diferença:
A diferença chega a R$ 4,09 por saca, cerca de 3%, sem que o preço da soja na CBOT nem o prêmio da operação tenham mudado em nada. Toda essa diferença vem do carrego embutido entre o câmbio de hoje e o câmbio do vencimento de março. É esse tipo de efeito que passa despercebido para quem compara propostas de venda olhando só o preço final em reais, sem separar o que veio da commodity e o que veio do câmbio.
Uma curva inclinada para cima, com o dólar futuro subindo de forma consistente a cada vencimento, costuma refletir um diferencial de juros elevado ou em expansão, como em 2021. Uma curva mais achatada indica que o mercado não espera grande diferença entre os juros dos dois países ao longo do período coberto pelos contratos.
O ponto de partida para ler qualquer curva de dólar futuro é sempre o mesmo: separar mentalmente o que é carrego (matemática de juros, relativamente previsível) do que é expectativa de câmbio (sujeita a notícia, fluxo e risco, muito menos previsível).
O dashboard Curva do Dólar busca os contratos futuros DOL da B3 automaticamente, interpola a curva completa por dias úteis, e mostra o carrego e os pontos vs. spot para cada mês de projeção. Não é preciso montar a conta de juros na mão nem acompanhar cada vencimento separadamente.
Contratos DOL da B3, interpolados por dia útil, com câmbio spot, carrego e projeção de até 24 meses.
Acessar o dashboardPrincipalmente por causa do diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos. Como a Selic normalmente é mais alta que os juros americanos, o dólar futuro embute esse carrego para manter a equivalência entre aplicar em reais e aplicar em dólares.
Não necessariamente. O diferencial de juros afeta principalmente o formato da curva, ou seja, o quanto o dólar futuro custa a mais que o dólar à vista. A direção do câmbio à vista depende de outros fatores, como fluxo de capital estrangeiro, risco fiscal e cenário internacional.
De forma simplificada, reflete o diferencial de juros entre os dois países, ajustado ao prazo até o vencimento do contrato. Quanto maior o diferencial e quanto mais longo o prazo, maior tende a ser o carrego embutido naquele ponto da curva.
Não no sentido de adivinhação. A curva reflete principalmente o carrego embutido pelo diferencial de juros, não uma previsão de para onde o câmbio vai. É comum, inclusive, o dólar à vista terminar em patamar diferente do que a curva projetava meses antes. Isso não significa que a curva "errou": significa que o câmbio spot reagiu a fatores que a curva nunca se propôs a prever.
Porque respondem perguntas diferentes. A PTAX é uma taxa de referência calculada pelo Banco Central a partir de operações interbancárias, usada principalmente para fins contábeis. O dólar futuro vem dos contratos DOL negociados na B3, refletindo o preço de mercado para entrega numa data futura específica.
Não é o ideal. Quem vai receber o pagamento numa data futura, e trava câmbio para essa data, recebe o dólar da curva naquele vencimento, não o dólar de hoje. Basear a decisão só no spot ignora o carrego já embutido no contrato futuro correspondente ao prazo da operação.
Porque quem fixa preço de venda ou trava câmbio para uma data futura não recebe o dólar de hoje, recebe o dólar daquele vencimento específico, que já embute o carrego do período. Olhar só o spot ignora essa diferença.
A curva cobre os vencimentos disponíveis dos contratos DOL negociados na B3, normalmente de curto a médio prazo. Para operações muito mais longas, o carrego projetado tende a ter maior margem de incerteza, já que depende de expectativas de juros mais distantes no tempo.