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Guia Completo · Mercado de Grãos

Relatório COT da CFTC: o que a posição dos fundos revela sobre o mercado de grãos

Toda sexta-feira, a CFTC publica um número que resume para onde os grandes fundos especulativos estão apostando em soja, milho e trigo. Em novembro de 2025, esse número expôs uma reviravolta de mais de 200 mil contratos em soja, escondida por seis semanas de apagão de dados. O episódio explica bem por que esse relatório é tão observado.

Por Equipe AgroBasis · Atualizado em julho de 2026 · Leitura de 10 min

O que é o relatório COT da CFTC

O COT (Commitments of Traders) é um relatório semanal da CFTC (Commodity Futures Trading Commission, o órgão regulador do mercado futuro americano). Ele mostra, praça por commodity, quantos contratos cada grupo de participante do mercado está comprado ou vendido. Os dados são coletados às terças-feiras e publicados às sextas, sempre no mesmo horário.

Este dashboard usa especificamente o formato Disaggregated, que divide os participantes em categorias:

CategoriaO que representa
Managed MoneyFundos especulativos (hedge funds, CTAs). Sem exposição física à commodity, apostam puramente em direção de preço
Producer/MerchantProdutores, processadores e comerciantes físicos, usando o mercado futuro para proteger preço
Swap DealersInstituições que negociam swaps e replicam essa exposição no mercado futuro
Other ReportableDemais participantes com posição grande o suficiente para reporte obrigatório

A categoria mais observada pelo mercado é a Managed Money. Diferente de um produtor com soja no silo, um fundo não tem nenhuma exposição física ligada à posição. Sua compra ou venda reflete visão de mercado, não necessidade de hedge. É por isso que a posição líquida dos fundos funciona como termômetro de sentimento especulativo.

Por que a posição dos fundos move preço

Quando fundos acumulam uma posição comprada muito grande, existe um limite prático para o tamanho dessa aposta. Em algum momento, o fluxo de novas compras se esgota, simplesmente porque já não sobra comprador marginal disposto a entrar. Nesse ponto, qualquer notícia negativa (ou até a ausência de notícia positiva) pode disparar uma onda de vendas de fundos realizando lucro ou cortando posição, empurrando o preço na direção oposta.

O mesmo raciocínio vale ao contrário para posições vendidas extremas. Isso não significa que posição extrema garanta reversão imediata. Significa que ela reduz o espaço para o movimento continuar no mesmo ritmo, e aumenta a sensibilidade do mercado a qualquer notícia que force os fundos a recuar.

"Posicionamento extremo não é um gatilho de entrada, é uma confirmação de que uma tendência pode estar esticada — combinar isso com o fundamento e com o timing técnico continua sendo trabalho do analista."

O apagão de 2025: seis semanas sem saber a posição real dos fundos

Em outubro de 2025, uma paralisação do governo americano interrompeu a divulgação do relatório COT. Entre o início de outubro e 12 de novembro, o mercado ficou sem nenhuma atualização oficial sobre a posição dos fundos. Na última leitura disponível antes do apagão, com dados até 30 de setembro, os fundos estavam vendidos líquidos em soja.

Quando a CFTC retomou a publicação e foi colocando os relatórios atrasados em dia, o mercado descobriu o tamanho real da mudança que havia acontecido às escuras. Os fundos não apenas zeraram a posição vendida: construíram uma posição comprada recorde.

Soja (contrato de janeiro) e posição líquida da Managed Money
Do fechamento de 30/09/2025 ao primeiro dia de aviso do contrato, 31/12/2025
Preço da soja (US$/bushel) Posição líquida Managed Money
apagão de dados US$ 11,20 US$ 11,57 US$ 10,30 229 mil contratos 30 set (sem dados) 17-18 nov 31 dez
Trajetória ilustrativa entre os pontos oficiais confirmados. Fonte: Pro Farmer, dados CFTC · Elaboração: AgroBasis

O pico da posição comprada saiu em 18 de novembro de 2025: 229.625 contratos líquidos comprados em soja, o maior nível desde outubro de 2020. O contrato de janeiro fechou 30 de setembro, véspera do apagão, em torno de US$ 11,20¼, e subiu até US$ 11,57¼ o bushel em 17 de novembro, um avanço de 37 centavos no período.

A sequência seguinte confirma o padrão clássico de reversão após posicionamento extremo. Até o último pregão do ano, em 31 de dezembro, o contrato de janeiro havia recuado para US$ 10,30½, uma queda de mais de um dólar frente ao pico de novembro. O milho, no mesmo período, teve uma reação bem mais discreta: os fundos chegaram a ficar levemente comprados em meados de novembro, pela primeira vez desde maio, mas o preço seguiu andando de lado, numa faixa estreita entre US$ 4,35 e US$ 4,55.

Por que essa diferença entre soja e milho importa: o mesmo evento (o apagão) afetou os dois mercados, mas só a soja teve uma reversão de posicionamento extrema. Isso mostra que a posição dos fundos não se move em bloco por commodity, ela reflete a leitura específica de cada mercado, e cada um merece ser acompanhado separadamente.

Percentil e Z-Score: transformando um número bruto em sinal

Saber que os fundos estão comprados em 229 mil contratos não diz, por si só, se isso é muito ou pouco. Sem contexto histórico, o número fica solto. É aí que entram duas ferramentas estatísticas simples:

Percentil histórico

Mostra em que ponto da distribuição histórica completa a posição líquida atual se encontra. Um percentil 90 significa que o Net atual é maior do que 90% de todas as leituras já registradas para aquela commodity.

Z-Score

Z-Score = (Net atual − Média histórica) ÷ Desvio-padrão histórico

Mede quantos desvios-padrão a posição atual está distante da própria média histórica. Como regra prática, valores acima de 1,5 ou abaixo de -1,5 já indicam posicionamento historicamente esticado.

Os 229.625 contratos de novembro de 2025 não foram extremos só em valor absoluto. Representaram o maior nível em cinco anos, o que colocaria o percentil e o Z-Score daquela leitura próximos do topo da série histórica. É essa combinação (posição grande em valor absoluto e extrema em termos relativos) que costuma preceder movimentos de correção.

O que isso tem a ver com a sua operação

Soja, milho e trigo brasileiros são precificados com referência direta à CBOT. A posição dos fundos americanos, mesmo sem nenhuma relação direta com a safra brasileira, influencia o preço de referência que entra na conta do exportador e do produtor no Brasil.

  • Leitura de curto prazo: posicionamento extremo ajuda a calibrar expectativa de volatilidade nos próximos dias e semanas, mesmo sem prever a direção exata do próximo movimento.
  • Complemento ao fundamento: o COT não substitui a análise de oferta e demanda física, mas mostra se o mercado já precificou (ou ainda não) determinada expectativa.
  • Relação com o basis: mudanças bruscas na posição dos fundos podem se transmitir ao preço futuro de referência e, por consequência, à relação entre preço físico e futuro que discutimos nos dashboards de Basis Milho e Basis Soja.

Como acompanhar isso na prática

O dashboard Posição dos Fundos CFTC automatiza exatamente essa leitura. Ele busca os dados oficiais direto da CFTC toda semana, calcula percentil e Z-Score para cada categoria e cada commodity, e mostra a evolução histórica lado a lado com o preço futuro. Não é preciso baixar planilha nem montar cálculo manual.

Acompanhe a posição dos fundos em tempo real

Managed Money, percentil histórico e Z-Score para soja, milho, trigo, farelo, óleo e algodão, atualizados toda semana direto da CFTC.

Acessar o dashboard

Perguntas frequentes

Com que frequência o relatório COT é publicado?

Semanalmente, sempre às sextas-feiras, com dados coletados na terça-feira anterior. Esse intervalo de três dias entre coleta e divulgação é importante: em mercado muito rápido, a posição já pode ter mudado quando o relatório sai.

Por que Managed Money é a categoria mais observada, e não Producer/Merchant?

Porque Managed Money representa fundos sem exposição física à commodity. A posição deles reflete puramente visão direcional de mercado. Producer/Merchant, ao contrário, usa o mercado futuro majoritariamente para proteger uma posição física já existente, então a leitura de sentimento fica menos limpa nessa categoria.

O que aconteceu de fato durante o apagão de dados de 2025?

Uma paralisação do governo americano interrompeu a divulgação do relatório COT entre outubro e 12 de novembro de 2025. Quando a CFTC retomou a publicação, revelou que os fundos haviam saído de uma posição vendida em soja para um recorde de 229.625 contratos comprados líquidos, o maior nível desde outubro de 2020.

Posicionamento extremo dos fundos garante que o preço vai reverter?

Não. É um indicador de contexto, não uma previsão. Posição extrema reduz o espaço para o movimento continuar no mesmo ritmo e aumenta a sensibilidade do mercado a notícias, mas o momento exato da reversão depende de outros fatores, incluindo fundamento de oferta e demanda e gatilhos técnicos de preço.

Qual a diferença entre o relatório Legacy e o Disaggregated?

O relatório Legacy agrupa todos os participantes não comerciais numa única categoria, misturando fundos especulativos com outros agentes. O Disaggregated, usado neste dashboard, separa Managed Money, Producer/Merchant, Swap Dealers e Other Reportable, o que dá uma leitura mais precisa de quem está realmente posicionado de forma especulativa.

Fontes consultadas para este artigo: Pro Farmer, "From net short to massive longs: How the CFTC blackout masked the soybean rally", janeiro de 2026; CFTC (Commodity Futures Trading Commission), Commitments of Traders Reports; documentação pública sobre metodologia de leitura de percentil e Z-Score em relatórios de posicionamento.
Equipe AgroBasis
Inteligência de mercado para o agronegócio: dashboards, análises e conteúdo educacional com dados oficiais.
Fonte dos dados: CFTC (Commodity Futures Trading Commission). Conteúdo referencial para acompanhamento de mercado, elaborado pela equipe AgroBasis. Não constitui recomendação de investimento, compra ou venda.