Comercialização · Soja
Por [SUBSTITUIR PELO SEU NOME/MARCA] · Publicado em 10 de julho de 2026 · Leitura de 7 min
Todo produtor já ouviu que o melhor momento para vender soja é novembro. Testamos essa crença com 20 anos de dados oficiais do CEPEA e um ajuste que quase ninguém faz: o custo de oportunidade do dinheiro parado no silo.
Todo produtor de soja já ouviu alguma versão da mesma frase: segure a produção até novembro, porque é quando o preço fica melhor. É um conselho tão repetido que virou quase uma regra não escrita da comercialização no Sul do Brasil.
Só que essa regra nunca tinha sido testada com rigor estatístico, pelo menos não com dados públicos e metodologia declarada. Fizemos esse teste. Usamos 20 safras completas (2006 a 2025) do Indicador CEPEA/ESALQ Paraná, a série de preço físico de soja mais longa e consistente disponível gratuitamente no Brasil, e aplicamos três camadas de análise: o preço nominal puro, o preço ajustado pelo custo de oportunidade do dinheiro, e um teste estatístico formal para saber se a diferença entre os meses é real ou só ruído.
O resultado confirma parte da crença popular e derruba outra parte.
Olhando o preço nominal médio de cada mês ao longo de 20 safras, novembro aparece como o mês com maior índice médio de preço, com folga sobre os demais.
Mas média de 20 anos é só metade da história. A pergunta mais útil não é "qual mês tem a média mais alta", e sim "com que frequência esse mês realmente foi o melhor momento de vender, safra a safra". Quando contamos ano a ano, o resultado muda de figura:
Novembro foi o melhor mês em 25% das safras — o dobro do segundo colocado. Mas isso também significa que, em 75% das vezes, o melhor preço do ano apareceu em outro mês.
Aqui está o ponto central deste estudo, e o motivo pelo qual ele é diferente de qualquer análise de sazonalidade que você provavelmente já viu.
Guardar a soja da colheita até novembro significa segurar o grão por 8 a 11 meses. Nesse período, quem vendeu cedo poderia simplesmente ter aplicado o dinheiro em CDI, o retorno mais básico e livre de risco do mercado financeiro brasileiro. Se o preço da soja não subiu mais do que o CDI acumulado nesse intervalo, guardar foi uma decisão financeiramente pior do que vender e aplicar, mesmo que o preço nominal tenha subido.
Recalculamos o ganho de cada mês descontando exatamente esse efeito:
Rodamos um teste de Kruskal-Wallis (o método estatístico adequado para comparar vários grupos quando os dados não seguem uma distribuição normal) e o resultado não encontrou diferença significativa entre os meses (p = 0,914). Isso não prova que a sazonalidade não existe, mas mostra que, com 20 anos de amostra, a variação entre safras é grande demais para afirmar com confiança que um mês específico é sistematicamente melhor.
Quando medimos o ganho médio dividido pelo desvio-padrão (uma métrica equivalente ao Índice de Sharpe usado no mercado financeiro), setembro sai na frente, não novembro. Novembro continua com o maior ganho médio bruto, mas boa parte desse resultado depende de poucos anos com valorização excepcional.
| Mês | Frequência de ser o melhor mês | Ganho médio vs. CDI | Índice risco-retorno (ICAR) |
|---|---|---|---|
| Março (referência) | 15% | — | — |
| Abril | 0% | -0,81% | -0,148 |
| Maio | 5% | +1,05% | 0,129 |
| Junho | 5% | +2,55% | 0,239 |
| Julho | 5% | +3,34% | 0,272 |
| Agosto | 0% | +3,74% | 0,261 |
| Setembro | 15% | +5,30% | 0,331 (melhor) |
| Outubro | 0% | +4,02% | 0,269 |
| Novembro | 25% (líder) | +4,68% | 0,288 |
| Dezembro | 10% | +3,40% | 0,208 |
| Janeiro | 10% | -0,04% | -0,003 |
| Fevereiro | 10% | -2,28% | -0,123 |
Em outros termos: novembro te dá a maior recompensa esperada, mas com mais oscilação. Setembro entrega um resultado mais modesto, só que mais consistente, ano após ano.
Se você é produtor e toma decisão de comercialização com base em "sempre foi assim", este é o ponto de atenção: a vantagem de esperar até novembro é real na média, mas não é garantida, e o tamanho dela depende muito do nível de juros vigente no momento da decisão.
Quanto mais alta a Selic (e, por consequência, o CDI), maior precisa ser a valorização do preço físico para compensar o custo de oportunidade de segurar o grão. Em anos de juros baixos, a régua para "vale a pena guardar" é mais fácil de bater. Em anos de juros altos, a régua sobe, e a decisão de guardar passa a exigir uma expectativa de alta acima da média histórica, não apenas a repetição do padrão sazonal de sempre.
Historicamente, novembro é o mês com maior frequência de melhor preço nominal, aparecendo como o mais vantajoso em 25% das 20 safras analisadas (2006 a 2025, CEPEA/ESALQ Paraná). Ainda assim, em 75% das safras o melhor preço ocorreu em outro mês.
Depende do custo de oportunidade do dinheiro no momento. Descontado o CDI do período de espera, nenhum mês supera os demais de forma estatisticamente confiável (teste de Kruskal-Wallis, p = 0,914).
Em ganho médio absoluto, novembro segue à frente. Mas no ganho ajustado ao risco (equivalente ao Índice de Sharpe), setembro tem o melhor resultado entre os 12 meses, com retorno mais consistente ano após ano.
É a comparação entre vender a soja em um mês específico e vender antes, em março, aplicando o valor recebido no CDI pelo mesmo período. Se o preço da soja não superou o que o CDI teria rendido, guardar foi, em termos financeiros, uma decisão pior do que vender e aplicar.
Este estudo usa o Indicador CEPEA/ESALQ Paraná (base Paranaguá), série mensal de 20 safras completas (março de cada ano até fevereiro do ano seguinte, 2006 a 2025). O ajuste por custo de oportunidade capitaliza o preço de março pelo CDI oficial do Banco Central do Brasil, mês a mês, e compara o resultado com o preço nominal observado. A comparação estatística entre os meses foi feita com o teste de Kruskal-Wallis, adequado para amostras que não seguem distribuição normal. A safra de 2020 foi identificada como um ano estatisticamente atípico, ligado ao choque de preços da pandemia, e por isso excluída do cálculo de ganho ajustado.
Fontes: CEPEA/ESALQ, Banco Central do Brasil, Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS).
No próximo artigo desta série, testamos se vale a pena guardar a soja de um ano para o outro — e o que 20 safras dizem sobre isso.
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