Toda segunda-feira, entre abril e novembro, um relatório de poucas páginas do governo americano é capaz de mover bilhões de dólares no mercado futuro de Chicago em minutos. Este texto explica como ele funciona, o que é o CCI (Crop Condition Index) e como a seca de 2012 ilustra bem essa dinâmica.
O Crop Progress and Condition Report é um levantamento semanal do USDA NASS (National Agricultural Statistics Service, o serviço de estatísticas agrícolas do governo dos Estados Unidos). Todo domingo, uma rede de observadores em campo (agrônomos, extensionistas rurais e produtores cadastrados) avalia visualmente a condição das principais lavouras do país. Os resultados são consolidados e publicados na segunda-feira seguinte, sempre no mesmo horário, durante a janela de abril a novembro. É o período em que milho, soja e trigo de fato estão se desenvolvendo no campo americano.
O relatório classifica cada lavoura em cinco categorias de condição:
Os cinco percentuais sempre somam 100%. Cada ponto percentual de lavoura pertence a exatamente uma categoria, nunca a mais de uma. Além da condição, o mesmo relatório também acompanha o estágio de desenvolvimento da safra (percentual plantado, emergido, em floração, colhido), que muda semana a semana conforme o calendário da cultura.
Os Estados Unidos são o maior produtor mundial de milho e um dos dois maiores exportadores globais de soja, ao lado do Brasil. Qualquer mudança relevante na condição da safra americana, para melhor ou para pior, afeta a expectativa de oferta mundial. O mercado futuro de Chicago (CBOT) reage a isso quase instantaneamente.
Na prática, quando a condição da lavoura piora numa semana em que o mercado esperava estabilidade, a expectativa de produtividade cai. Menos produção esperada, com a mesma demanda mundial, tende a pressionar o preço para cima. O inverso também vale: uma safra em condição melhor do que o esperado tende a pressionar preços para baixo.
A seca de 2012 foi uma das piores da história recente do Corn Belt americano, e ilustra bem essa dinâmica. A safra começou com condições excelentes: os produtores plantaram no ritmo mais rápido já registrado até então, mirando uma colheita recorde. O calor extremo e a falta de chuva que se instalaram a partir de junho, porém, derrubaram a condição da lavoura semana após semana, de forma dramática:
Em apenas sete semanas, a fatia da safra classificada como boa ou excelente despencou de 66% para 24%. A queda continuou até 23% no início de agosto. Em meados de julho daquele ano, a fatia da safra em condição ruim ou muito ruim já havia chegado a 30%, um nível que não se via desde 1988. O resultado no mercado físico foi imediato e violento: o contrato futuro de milho na CBOT saltou de cerca de US$ 6 por bushel, no fim de junho, para mais de US$ 8 em 23 de julho. Bancos de investimento chegaram a projetar, na época, algo em torno de US$ 9. A soja seguiu o mesmo caminho: subiu 29% desde o início daquele ano e bateu recorde histórico de preço na mesma semana de julho.
O ponto central desse episódio vai além da intensidade da seca em si. O mercado só conheceu, semana após semana, a dimensão real das perdas porque o USDA continuou publicando o relatório, pontualmente, toda segunda-feira. Sem esse fluxo contínuo de informação padronizada, a incerteza (e a volatilidade de preço) teria sido ainda maior.
Acompanhar cinco percentuais separados, semana a semana, é trabalhoso. Comparar duas semanas em que uma categoria subiu enquanto outra caiu tampouco é intuitivo. Para resolver isso, o mercado passou a usar um índice que resume as cinco categorias num único número: o CCI (Crop Condition Index), com a fórmula de ponderação popularizada pela consultoria americana Pro Farmer.
Cada categoria recebe um peso, a mesma numeração dos cartões acima: Excelente vale 5, Boa vale 4, Regular vale 3, Ruim vale 2 e Muito Ruim vale 1. A soma ponderada dos cinco percentuais já resulta diretamente numa escala de 100 a 500 pontos, sem precisar de nenhuma conversão adicional:
Suponha que o USDA divulgue, numa determinada semana: 11% Excelente, 55% Boa, 25% Regular, 7% Ruim e 2% Muito Ruim. Aplicando a fórmula:
Numa escala em que 500 é a condição perfeita teórica (100% da safra excelente) e 100 é a pior condição possível (100% muito ruim), 366 pontos indica uma safra em condição consideravelmente acima da média. Foi possível chegar a essa conclusão sem olhar cinco números separados.
O calendário agrícola americano (plantio no fim da primavera, colheita no outono do hemisfério norte) é praticamente o espelho do calendário brasileiro. Isso cria uma janela específica do ano, justamente o período coberto pelo Crop Progress and Condition Report, em que a safra americana passa a ser a principal fonte de notícia nova sobre oferta mundial. A safra brasileira, na maior parte desse período, já está definida ou em fase final de comercialização.
Construímos o dashboard Condição de Safra EUA exatamente para resolver esse acompanhamento sem depender de planilha manual ou de abrir o site do USDA toda segunda-feira. Ele calcula o CCI automaticamente a partir do dado oficial, atualiza sozinho toda semana durante a temporada e mostra o histórico completo desde 2010, com o mesmo tipo de comparação sazonal usada no gráfico da seca de 2012, mas para milho e soja, ano a ano, com a média histórica de 5 anos como referência.
Histórico desde 2010, atualização semanal automática, e comparação com a média dos últimos 5 anos — direto da fonte oficial do USDA.
Acessar o dashboardSemanalmente, sempre às segundas-feiras, no período de 1º de abril a 30 de novembro. É a janela em que milho, soja e trigo estão de fato em desenvolvimento no campo americano. Fora dela, o USDA não realiza levantamento formal de condição de safra.
Condição mede a saúde da lavoura (Muito Ruim a Excelente). Progresso mede o estágio de desenvolvimento (% plantado, % emergido, % em floração, % colhido). O mesmo relatório semanal traz os dois indicadores, mas eles respondem perguntas diferentes: um fala sobre "como está" a safra, o outro sobre "em que fase" ela está.
A fórmula de pesos é a mesma, mas o cálculo pode divergir. O índice oficial da Pro Farmer pondera cada estado pela sua participação histórica na produção nacional, enquanto o cálculo nacional simples (usado no dashboard AgroBasis) aplica a fórmula direto sobre os percentuais agregados que o próprio USDA já publica.
Porque área plantada e produtividade são coisas diferentes. Em 2012, os EUA plantaram a maior área de milho em quase 75 anos, mas a seca extrema reduziu drasticamente a produtividade por hectare, derrubando a produção total apesar da área recorde. O mercado precifica a expectativa de produção total (área × produtividade), não só a área plantada.
Sim, mas com uma particularidade: existe trigo de inverno (plantado no outono, entra em dormência no inverno e retoma condição na primavera) e trigo de primavera (calendário totalmente diferente, mais parecido com milho e soja). São duas séries de condição separadas, com janelas de divulgação diferentes.